Dos seis integrantes do Sobrado 112, apenas um admite não ser apaixonado por café: Victor Gottardi, cantor, compositor e guitarrista, nascido em Ribeirão Preto há 24 anos. “Café” é o nome da skapolca da banda que está começando a tocar nas rádios e é parceria de Victor com Leandro Joaquim, multiinstrumentista dos sopros e responsável pelos efeitos eletrônicos, e Matheus Silva, que aparece nos créditos de algumas faixas do álbum Isso nunca me aconteceu hoje (Oi Música). “Adoro café. Tomo para acordar, para dormir. Só começo o dia depois que faço café. Basta beber um pouquinho para dar vontade de fazer alguma coisa. Gosto de provar os sabores, as safras, os fabricantes… Na época de grana alta, comprava cafés até de outros países”, conta Leandro, um dos mais falantes da banda.
A viagem pelo fantástico mundo dos grãos continua e, se a gente deixar, Leandro fala sobre café do início ao fim da entrevista, que correu solta, nos bastidores do Teatro Odisséia, na Lapa. “Sabe o que que eu gosto? De fazer o café. Aquela onda de colocar a água no fogo, depois medir: um tanto de água, um tanto de pó, o cheiro…”. Para o percussionista Cláudio Fantinato, bom mesmo é café passado no coador. “O café precisa ter contato com o oxigênio pra liberar a cafeína. Café expresso não tem cafeína. Por isso você precisa tomar muito mais”, ensina. E para encerrar o assunto, Leandro avança: “Sou capaz de beber uns dez cafés desses por dia. Apesar de ser mais forte, o expresso não dá barato”, atesta, diante de risos gerais.
Trazendo a conversa para o roteiro, calculamos que faz mais de 150 anos que a polca européia influenciou o choro carioca. E é interessante acompanhar como esse gênero gringo continua metendo o bedelho na música brasileira. Leandro Joaquim, criador da skapolca, explica: “Skapolca vem de um lance de juntar as músicas que a gente gosta e tal. Tem mais a ver com ska do que com polca, só que como resultado, a polca aparece mais. Não importa. Acontece que os dois ritmos se fundem muito bem. Os dois são dançantes e cheios de humor”. Leandro recorda que a skapolca foi inventada lá no famoso sobrado, na Glória, onde parte da banda morava. “O legal é que a skapolca é extremamante simples e legal de tocar. Tudo sem complicação harmônica nem rítmica. E o desenvolvimento da coisa toda foi abrindo novos tipos de skapolca”, emenda Leandro.
Dá para imaginar essa turma dividindo banheiro, conta de luz, geladeira? Victor e Cláudio moraram juntos em 2005, no tal sobrado. Assim que Victor saiu, o Leandro entrou para rachar as despesas e ocupar o espaço. Só que Victor sempre passava para dar um alô, beber umas cervejas e, óbvio, levar um som. Ao todo, o 112 foi alugado até o final de 2007 por eles, nascidos e criados do interior de São Paulo. “A gente começou a tocar sem pretensão e até que saiu um som maneiro”, simplifica Leandro. Eles começaram a gravar os ensaios em vídeo só para registro. “Mas começou a ficar legal para c@$%**# e postamos tudo no YouTube”. Estamos falando de um grupo ainda sem nome, na época, um quarteto, formado por Victor, Leandro, Cláudio e o percussionista Julio Braga. “Na verdade, o nome Sobrado ficou por falta de uma ideia melhor”, conta Leandro, às gargalhadas.
Hoje, veja só, eles tem um disco instrumental inédito, chamado (provisoriamente?) de Sobrado 112 no país da skapolca. Mas o primeirão foi um de sambas. “Queríamos gravar um disco para não ficar só tocando sem perspectiva”, pontua Victor, deixando claro que os músicos do Rio de Janeiro não davam nenhuma moral para eles e foi assim que resolveram fazer o inverso: gravar um disco e depois marcar shows. Em 2007, entraram em estúdio e amargaram uns sete meses com a agenda vazia. O ano virou e o disco estava na web, liberado para download. “Foi quando tivemos que dar um basta. O segundo basta. O primeiro foi: enquanto a gente não botar um dinheiro, nada vai para frente. E o segundo: enquanto a gente não formar uma banda, não vai rolar”, rebobina Leandro. Na época, o repertório era meio embolado, com covers de Gilberto Gil e Jorge Ben, uns instrumentais jazzísticos e algumas autorais, entre elas “Narcisa”.
Antes de entrar em estúdio novamente, pintou a primeira turnê da banda pelo interior de São Paulo. Foi quando Victor chamou o baixista Pedro Dantas e resgatou o guitarrista Miguel Martins, que já havia tocado com eles. O baterista Maurício Calmon – filho da quase entidade no instrumento Renato “Massa” Calmon – também entrou nessa época. “A gente tinha fechado um show no Sesc Ribeirão e era importante levar um som de peso. Pô, tocar na nossa cidade, com o lance de estar no Rio. A gente se viu na obrigação de fazer um show maneiro”, fala Victor. Depois de comer poeira por uma semana, tocar em Campinhas à noite e cair na estrada para se apresentar em Ribeirão no dia seguinte, a banda se uniu. “Foi divertido pra c@%*&#$, nos sentimos uma banda em turnê mundial e o time fechou”, lembra Victor. Os instrumentos preencheram a caminhonete do Cláudio e a galera foi amontoada no Palio do Victor. E, em setembro de 2008, foi quando tudo realmente começou.
Com apenas dois cariocas da gema, é engraçada a aparição do nome de um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro nas músicas deles: “Grajaú”, gravado no disco com patrocínio da Oi, e “Eu e minha amada no Grajaú”, registrado no Simérius Conan, um álbum instrumental, feito com o dinheiro ganho num prêmio em parceria da Oi com a Casa da Matriz. Tudo isso rolou em 2008. Miguel aposta na sonoridade da palavra. “Grajaú é uma brincadeira silábica mesmo”, atesta Leandro (foto) que, você deve ter notado, é uma figura espetacular. Victor é outra comédia. Acredita que ele tapa a marca do instrumento com fita adesiva? “Quando filmamos o clipe eu tampei, p#**%. ‘Quer saber, velho? Não ganho dinheiro com esses caras, vou cobrir essa m&%%@’, pensei. Além disso, é uma guitarrinha barata, de R$ 400, que reformei e virou a minha favorita”. Mais risos gerais.
A parceria com a Oi trouxe uma baita visibilidade para o Sobrado 112. Banda, aliás, formada por garotões: os mais novos são Victor e Maurício, ambos com 24, apenas alguns meses de diferença. Pedro tem 25, Miguel, 28, Cláudio, 33, e Leandro, 34 anos. Uma espécie de Dr. Pardal da galera, Leandro Joaquim está despontando como instrumentista. Gravou o incensado disco 3 session in a Greenhouse, com Lucas Santtana, e agora acompanha a rapaziada do Fino Coletivo. “Conheci a palavra dub nesse trabalho com o Lucas. No final, o Sobrado gravou o disco instrumental com o Buguinha Dub, um mestre de Olinda que faz as coisas da Nação Zumbi. Toco em várias bandas, mas o Sobrado é a minha banda”, diz com aquela fidelidade partidária que costuma funcionar na vida.
O mercado fonográfico está mudando drasticamente. O marketing é outro, a estrutura é outra e a divulgação também precisa se adaptar. “O Sobrado, que é uma banda que quase ninguém conhece, tem 150 mil downloads. Essa galera toda pagou para nos ouvir”, contabiliza Leandro. E olha que eles ainda circularam pouco (São Luís, Porto Alegre, Fortaleza, Vitória, Campinas e Ribeirão Preto), além, naturalmente, das muitas apresentações no Rio de Janeiro. O Sobrado 112 está ficando requintado. Depois de filmar um clipe, também investimento da Oi, a mistura sonora vem chegando devagar no figurino dos rapazes. “A gente não planejou ir num brechó e descolar um guarda-roupa exagerado. Rolou”, explica Victor, interrompido por Leandro: “No fundo, no fundo, tudo isso é fake. Foi uma parada que a gente inventou e agora precisa dar conta”. Mais uma vez, os seis amigos gargalham juntos e entregues à brincadeira, feito crianças.
Para conhecer o Sobrado 112 ao vivo:
Show dia 3 de junho, às 23h, no Estrela da Lapa (Av. Mem de Sá, 69). Ingressos a R$ 25, valendo meia entrada (R$ 12,50)








junho 22nd, 2010 at 22:58
Adoramos a entrevista!